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segunda-feira, dezembro 22, 2014

O NATAL EXISTE E O PAPAI NOEL NÃO É TRISTE

 c-bernardo2012@bol.com.br
Desde 1995 escrevo crônicas para jornais, até 2010 escrevi e publiquei uma para cada natal. Depois do susto com o câncer produzi o mínimo para o meu blog, uma ou duas crônicas para jornais, mas nada que se referisse a natal e fim de ano.
Sei da mesmice dessas crônicas, mas em 2014 posso falar de um Jesus inédito nascendo outra vez, e dos presentes que um renovado Papai Noel tem me dado.
Lá atrás, 2011, maio, quando meu corpo queria morrer disse-me uma voz vivificadora à porta do centro cirúrgico: “não tenha medo, Deus lhe trouxe aqui para aliviar o seu sofrimento”. Não deu outra, um “menino” irradiou luz intensa sobre os médicos, os doutores Carlos Walter Sobrado, Dalto Martins e Domingues. Doze dias depois o “bom velhinho” abriu o saco de bondade: ganhei alta do hospital.
Outra vida a viver, no geral de superação. Rápido tive que aprender a ver e ouvir o choro dos meus filhos, netos, esposa, parentes e amigos por causa de mim – seria difícil a caminhada.
Depois, pouco depois, de volta aos hospitais fui conhecer a dor dos meus iguais: o senhor “josé” sofria, chorava por causa da perda temporária dos pelos, o que lhe derrubou também a barba – símbolo de sua autoridade paterna. O jovem de 23 anos tinha seus ossos consumidos pelo câncer – nos comovia com a sua imensa dor. A “maria” tinha o câncer, mas não uma casa aonde convalescer. Dona “bete”, mãe, morria mais que o filho com câncer no sangue. O inteligente menino sobrevivente ao câncer na cabeça, mas sucumbindo ao tratamento muito rigoroso quis ir – e fomos – comigo à igreja, parecia dizer que pararia ali mesmo. Uns e outros, vários, conheci na hermética sala de quimioterapia e logo morreram.
Todavia, os anos foram passando e fui chegando inteiro aos natais, nenhum igual ao outro – cada um mais natal que o anterior. E por que? Pela descoberta de que é também diferente o Jesus que renasceu em cada um desses anos. 2011 animador: vá em frente, mas tenha coragem - 2012 admoestador: vá conhecer o sofrimento alheio - 2013 concedente: esperança renovada. Já o de 2014 parece que vai me dizer: lute mais, enfrente mais, aplaine mais o caminho.
Paralelamente a esses renascimentos de Jesus em mim sempre esteve o Papai Noel com o mesmo presente espetacular: mais um ano de vida.
Portanto, Natal e Papai Noel não são “produtos” apenas da fé e dos sonhos, mas também das nossas necessidades mais prementes - imorredouras.
A vida é surpreendente, o Natal existe, o Papai Noel não é triste.

quinta-feira, dezembro 04, 2014

INTEGRALIDADE: PRINCÍPIO DO DIREITO À SAÚDE.

c-bernardo2012@bol.com.br 
A integralidade  em saúde é um dos princípios doutrinários da política do Estado brasileiro para a saúde – o Sistema ünico de Saúde (SUS) –, uma espécie de “consolidacao” das ações direcionadas à materialização da saúde como direito e como serviço.
A gênese da integralidade em saúde seria a boa medicina, aliada a práticas de boas respostas governamentais a problemas específicos de saúde.
Seria, portanto, a integralidade, um valor a ser sustentado, um traço de uma boa medicina, uma resposta ao sofrimento do paciente que procura o serviço de saúde. Seria, simultaneamente ,um cuidado para que essa resposta não conduzisse a silenciamentos. Ela estaria presente no encontro, na conversa em que a atitude do médico buscaria prudentemente reconhecer, para além das demandas explícitas, as necessidades dos cidadãos no que diz respeito à sua saúde.
Logo, essa integralidade estaria presente também na preocupação desse profissional com o uso das técnicas de prevenção, tentando não expandir o consumo de bens e serviços de saúde, nem dirigir a regulação dos corpos.
Assim, integralidade em saúde, como modo de organizar as práticas, exige uma certa horizontalização dos programas anteriormente verticais, desenhados pelo Ministério da Saúde, superando a fragmentação das atividades no interior das unidades de saúde. A necessidade de articulação entre uma demanda programada e uma demanda espontânea aproveitaria as oportunidades geradas para a aplicação de protocolos de diagnóstico e identificação de situações de risco para a saúde, assim como o desenvolvimento de conjuntos de atividades coletivas junto à comunidade. Ou seja: sobre integralidade em saúde, as políticas são especialmente desenhadas para dar respostas a um determinado problema de saúde ou aos problemas de saúde que afligem certo grupo populacional. 
Com a institucionalização do SUS, mediante a lei 8.080-90, deflagrou-se um processo marcado por mudanças jurídicas, legais e institucionais nunca antes observadas na história das políticas de saúde do Brasil. Circunstancias que, legais e institucionais, definiriam a integraliadde em saúde como um conjunto articulado de ações e serviços de saúde, preventivos e curativos, individuais e coletivos.
Todavia, Brasil afora Amapá adentro, gestores, profissionais e usuários do SUS, na busca pela melhoria de  atenção à saúde, vêm apresentando evidências práticas do inconformismo e da necessidade de revisão das idéias e concepções sobre saúde.
Um repensar dos aspectos mais importantes do processo de trabalho, da gestão, do planejamento e, sobretudo, da construção de novos saberes e práticas em saúde, resultando em transformações no cotidiano das pessoas que buscam e dos profissionais e gestores que oferecem cuidado de saúde. Integralidade tem que se transformar em meio de concretizar o direito à saúde, como uma questão de cidadania.
Mas as relações sociais vigentes se contrapõem à Constituição Federal, que, ao criar e estabelecer as diretrizes para o SUS, oferece os elementos básicos para o reordenamento da lógica de organização das ações e serviços de saúde brasileiros, de modo a garantir ao conjunto dos cidadãos as ações necessárias à melhoria das condições de vida da população.
Em todo o país, mas especialmente aqui no Amapá, a hipocrisia, a impunidade, a ausência da integralidade em saúde como regra, revelam claramente o sofrimento difuso e crescente de pessoas que são cotidianamente submetidas a padrões de profundas desigualdades, expressos pelo acirramento do individualismo, pelo estímulo à competitividade desenfreada e pela discriminação negativa, com desrespeito às questões de gênero, etnia e idade.
A integralidade como fim na produção de uma política do cuidado, sempre se  referirá ao ato de cuidar integral dos pacientes, e só acontecerá quando se der pelo modo de atuar democrático, pelo fazer integrado, e pela intenção de em um cuidar alicerçado numa relação de compromisso ético-político de sinceridade, responsabilidade e confiança entre sujeitos.
No dicionário Aurélio, o termo acolhimento está relacionado ao “ato ou efeito de acolher; recepção, atenção, consideração, refúgio, abrigo, agasalho”. E acolher significa: “dar acolhida ou agasalho a; hospedar, receber; atender; dar crédito a; dar ouvidos a; admitir, aceitar; tomar em consideração; atender a”.
No Dicionário Houaiss, o termo acolhimento não existe, porém acolher significa “oferecer ou obter refúgio, proteção ou conforto físico. Ter ou receber (alguém) junto a si. Receber, admitir, aceitar, dar crédito, levar em consideração.
Em outubro de 2012 o Ijoma entrou com ação no Ministério Publico Federal com uma petição com a seguinte sinopse fática:
“A presente ação civil publica tem por objetivo compelir o Poder Público a tomar as medidas necessárias para que os estabelecimentos da rede estadual e municipal de saúde, integrantes do SUS - Sistema Único de Saúde, prestem serviços eficientes, seguros, contínuos e de qualidade, conforme determina a legislação pertinente, para com os doentes acometidos de câncer no Estado do Amapá.” 
Recebemos como resposta:
DECIDO
“Na condução de reuniões do Comitê Executivo da Saúde do Estado do Amapá, do qual sou coordenador, obtive informações do Governador do Estado e do Secretário de Estado da Saúde de que o Ministério da Saúde irá promover obra de ampliação do Hospital das Clinicas Alberto Lima – HCAL, contemplando: a) a construção de um Centro Oncológico de Alta Complexidade; b) reforma do Centro Cirúrgico; c) de novos leitos na UTI; d) novos consultórios médicos; e) sala de farmácia; f) ampliação da enfermaria. Também há informações de que os recursos necessários para essa obra já estão disponíveis, havendo, inclusive, procedimento  administrativo em andamento para a deflagração de licitação.
Com efeito, em que pese o caos da saúde publica no Estado do Amapá ser fato público e notório, tem-se que, no caso especifico do atendimento dos pacientes de câncer, as providencias administrativas já estão sendo adotadas. É certo, porem que essa estruturação na área de oncologia (praticamente inexistente nos hospitais do Estado) não tem como ser alcançada em prazo tão exíguo. A reforma, ampliação e construção de edificações, assim como a aquisição de equipamentos e contratação de pessoal, demandam tempo, exigindo da administração pública a necessária observância das formalidades legais para a sua efetivação.
Assim, diante da constatação de que a União e o Estado do Amapá já estão adotando as providencias necessárias para se alcançar os objetivos reclamados na presente demanda, não vislumbro, por ora, a presença de requisitos ensejadores da medida liminar”.   
ANTE O EXPOSTO, INDEFIRO O PEDIDO DE LIMNAR.
Citem-se os réus. Intimem-se.
Macapá, 9 de novembro de 2012.
Anselmo Gonçalves da Silva

Avançamos no tempo até que, entre os dias os dias 28 de fevereiro e 3 de março de 2013, dentro da vigência da ultima grande e prolongada falta de remédios quimioterápicos na rede publica estadual, morreram:
SEBASTIANA ROLINA DA SILVA – CECILIA SANTOS DAS DORES – ANA MARIA MORGONHA DA SILVA – VERA LUCIA BARROSO MONTEIRO – RAIMUNDA OLIVEIRA DOS SANTOS – EDIVALDO DE BRITO DE PAES.



quarta-feira, novembro 12, 2014

NÃO É, MESMO. NEM PROMOTOR O É.


O Juiz João Carlos de Souza (que por mais que insista e se convença, não é Deus) segue apoiado por Desembargadores do TJRJ. Os da 14 Vara Cível mantiveram a multa à Fiscal do Detran que cometeu “crime” dizendo a mais cristalina verdade: juiz não é Deus.
Mas nisso não há novidade alguma, relembremos abaixo o caso de outra celebridade nacional:
10 de Junho 2013:
PROMOTOR INCITA VIOLENCIA CONTRA MANIFESTANTES DO MOVIMEMNTO PASSE LIVRE

Depois disse que não disse dizendo o seguinte: o texto "foi fruto de desabafo feito por pessoas que estavam há muito tempo paradas no trânsito, mas que tinham compromisso com seus filhos". Me manifestei como cidadão. "Foi uma forma de expressão, jamais caracterizando aquiescência com execuções ou arbitrariedades".
Todavia, o Promotor André, antes, em março de 2011, escreveu num processo que um policial deveria melhorar sua mira. "Bandido que dá tiro para matar tem que tomar tiro para morrer. Lamento que tenha sido apenas um dos rapinantes enviado para o inferno. Fica o conselho: melhore sua mira".
Hoje eu ouvi um promotor ou procurador visitante do MP/SP dizendo em entrevista na Radio Difusora: “Os protestos de rua em 2013 mudaram o papel do Ministério Publico”.
Mudou como? A Constituição foi reformado a propósito? O colega Dr. André foi punido na forma da lei? O MP não cumpria com o seu papel antes dos protestos de rua em 2013?
 

sábado, novembro 01, 2014

TODOS OS SANTOS E FINADOS

Nilson Montoril
No século sétimo, o imperador romano Focas ofereceu ao Papa Bonifácio iv O Panteon, templo suntuoso que o imperador Agripa mandara construir no ano 27 antes de Jesus Cristo. O Sumo Pontífice aceitou a oferta e dedicou o prédio á Maria Santíssima, Mãe Deus a todos os santos. O templo fora erguido para comemorar a vitória do imperador Augustos sobre Marco Antônio e a Rainha egípcia Cleópatra na batalha de Acio, consagrando-o ao deus Júpiter Vingador. No local realizava-se o culto a todos os deuses romanos. No dia 12 de maio do ano 609 da era cristã, segundo registro do Cardeal Barônio, 28 carros transportaram os ossos dos mártires cristãos, exumados das catacumbas de Roma e seus arredores, como forma de preserva-lhes a memória. Em 731, o Papa Gregório III instituiu a solenidade dedicada a todos os santos.
A celebração ficou restrita à cidade de Roma. Em 837, o Papa Gregório IV estendeu-a a Igreja Universal. O dia de Todos os Santos foi instituído por três razões fundamentais: a- nem todos os santos têm um dia de festa; b- nem os santos receberam as honras da canonização; c- há uma inumerável multidão de santos desconhecidos, a qual aumenta cada dia com a entrada de novos eleitos no Céu. A Igreja Católica Universal respaldou-se na citação feita por São João Evangelista, no Apocalipse, sobre a visão que tivera de inúmeros santos no Céu: “Vi uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, que estavam em pé diante do trono e em presença do Cordeiro de Deus, cobertos de vestes re com palmas em suas mãos”.
A comemoração dos Fieis Defuntos complementa a festa de Todos os Santos e as duas são uma demonstração prática do dogma da Comunhão dos Santos. No dia consagrado ais mortos não bastam às lágrimas que derramamos à beira dos sepulcros; a saudade que sentimos das pessoas queridas já falecidas e as belas flores e coroas colocadas nas sepulturas.
É imprescindível que rezemos pelos mortos porque é provável que eles estejam num lugar de expiação, chamado purgatório. É aí que as almas dos eleitos, cuja pureza não é perfeita, expiam, em um fogo misterioso, o resto de suas faltas. No dia de finados o Martilológico dirige-nos estas palavras: ”Fazemos hoje a comemoração de todos os fiéis defuntos. A Igreja já instituiu a comemoração para socorrer as almas que ainda padecem no lugar da purificação, intercedendo por elas junto a Deus Pau e a Jesus Cristo, para que elas se reúnam, o mais depressa possível,à comunidade dos cidadãos do Céu”. A morte não é o fim para quem acredita na imortalidade da alma. A morte é a passagem do cristão, da vida terrena para outros estágios próprios dos espíritos. Sem a Luz Divina nenhum homem se. Ela provem de Deus e conduz ao cume da perfeição. A reza é o tributo exigido dos que desejam ter a Luz Divina. I cristianismo reconhece a existência do Juízo Particular e do Juízo Final ou Universal. O Juízo Particular ocorre no mesmo instante em que a alma do homem deixa o corpo e se apresenta ao Tribunal Celeste. Se a alma estiver em pecado receberá a sentença de Deus, condenando-a ao purgatório ou ao inferno.
Perante o Tribunal Celeste, o Supremo Juiz pedirá contas das ações da vida terrena do morto. Os demônios acusando todas as maldades e o Anjo da Guarda confirmando as acusações. A alma que chegar ao Juízo Particular em pecado estará desamparada de Deus e dos santos. Em torno de si estarão os demônios rangendo os dentes e impacientes para conduzi-los ao inferno. Se os pecados forem considerados leves, a alma irá para o purgatório para expiá-los. “Se os pecados forem mortais e graves, o condenado ouvirá de Jesus Cristo estas palavras:” Apartai-vos de mim, maldita, para o fogo eterno; vai padecer para sempre na companhia dos demônios e condenados, onde, no meio dos mais atrozes tormentos só ouvirás gritos e ranger de dentes”. O juízo Universal ou Final, considera que lá na madrugada do último dia do mundo se ouvirá sons de trombetas, cujo eco ressoará nos quatro cantos do mundo e fará ouvir por toda a parte estas palavras terríveis: “Levantai-vos, mortais,vinde a Juízo”. A terra lançará de si os corpos; o inferno vomitará todos os condenados; o Céu enviará também seis santos. As almas irão tirar dos sepulcros os corpos já de novo organizados.Os anjos separarão os bons e os maus.Os bons, devidamente purgados de seus pecados terão a recompensa eterna. Os maus, voltarão ao inferno,cujo fogo não se extinguirá nunca.É fogo que tudo penetra e nada consome, tudo queima e nada desfaz.Fogo temperado pela Justiça Divina com todos os gêneros de tormentos.(Referência: "Apologia ao Catolicismo).
Há uma crendice de que a alma só se afasta definitivamente do corpo quando ele é sepultado. Se for assim, as almas dos que morreram e não tiveram seus corpos resgatados não sobem nunca. Nem os incinerados. O espirito do morto se apresenta ao Tribunal Celeste tão logo ocorra a morte da matéria que o abrigou para o Juízo Particular. Se a alma estiver desamparada de Deus, de nada valem as sepulturas suntuosas e as mais humildes, Um ditado muito certo diz que santos e defuntos querem reza, nada de material. Se você quiser saber i que acontece com o corpo humano embaixo da terra, sinta o terrível odor da flor cadáver.

domingo, outubro 26, 2014

WALDIR BOUID


 

 

RODOVIA BELÉM-BRASÍLIA. UMA EPOPEIA COMPOSTA POR DOIS MÉDICOS: JK E WALDIR BOUHID*

                      Sérgio Martins Pandolfo**

  “Posso dizer que médico sou e serei – "Tu es medicus in æternum" – até o final de meus dias”. Juscelino Kubitschek de Oliveira em seu livro “A Marcha do Amanhecer” (1962)

           A Rodovia Belém-Brasília, que está prestes a completar o cinquentenário de abertura, teve uma trajetória de verdadeira epopeia entre a decisão e a concretização dos sonhos de dois homens notáveis: Juscelino Kubitschek e Waldir Bouhid. A determinação e o arrojo marcaram a personalidade desses dois gigantes como já a seguir se verá.
           No início de 1958, o Presidente Juscelino Kubitschek reuniu, no Palácio dos Leões, em São Luís do Maranhão, os Governadores da Amazônia e do Nordeste bem como os dirigentes de órgãos federais para comunicar-lhes sua decisão de construir a Nova Capital da República, cuja inauguração já havia adrede fixado para o dia 21 de abril de 1960.
           Após a exposição do Presidente Juscelino, a respeito das obras infraestruturais de transporte e comunicação planejadas para proporcionar condições de desenvolvimento à nova capital, Waldir Bouhid, Superintendente da SPVEA, verificando que o Pará estava fora do projeto global, fez ver que, sem uma rodovia interligando a capital paraense ao planejado Distrito Federal, este nada significaria para Belém, naquela época com ligação direta com o Rio de Janeiro, sede do governo federal, apenas por meio de navios e de aviões.
           O engenheiro Regis Bittencourt, Diretor Geral do DNER, consultado no ato por Juscelino sobre a viabilidade técnica da construção de uma rodovia entre Belém e Brasília, abriu o mapa do Brasil e, assinalando o enorme trecho de floresta virgem, disse ser humanamente impossível à engenharia nacional realizar obra daquele vulto, no prazo de dois anos. Tentava-se “pôr a água da razão no vinho puro da sabedoria divina”, a redizer São Boaventura. Sem se dar por vencido, Waldir Bouhid lançou o desafio: “Presidente, não sou engenheiro rodoviário, sou médico sanitarista. Entretanto, se Vossa Excelência conceder-me os meios, a SPVEA construirá essa rodovia para ser inaugurada juntamente com Brasília”. Tomado de surpresa - e maior firmeza - o diamantino JK concluiu: “Pois então, senhores, começaremos amanhã!”.
           Em 19 de maio de 1958, Juscelino sancionava o decreto nº 3.710, criando a Comissão Executiva da Rodovia Belém-Brasília – RODOBRÁS, vinculada à SPVEA e presidida pelo seu Superintendente.
          Transformada em meta prioritária do governo Kubitschek, a construção da rodovia foi subdividida pela RODOBRÁS em três setores: Goiás, Maranhão e Pará. O trecho de Goiás coube ao engenheiro agrônomo Bernardo Saião, pioneiro do desbravamento do norte goiano, que viera a morrer tragicamente em pleno serviço, a 15 de janeiro de 1959, esmagado pelo tombo de frondosa árvore.
           O trabalho de desbravamento da floresta virgem, numa extensão de 500 km entre São Miguel do Guamá, no Pará e Imperatriz, no Maranhão, foi o mais dramático dessa batalha ciclópica contra as asperezas da Natureza, o tempo limitado, a falta de equipamentos adequados e o excesso de chuvas nas épocas invernosas. Os 6.000 homens lançados nessa magnífica obra de integração nacional operavam, na fase inicial de desmatamento, basicamente com machados, terçados, facões e pequenas ferramentas de uso manual, ademais da determinação e bravura.
           Longe dos momentos de tristeza causados pelo desaparecimento trágico do engenheiro Bernardo Saião, do engenheiro paraense Rui Almeida e de outros trabalhadores anônimos, o ponto marcante daquela obra considerada impossível foi a chegada da Coluna Norte da Caravana de Integração Nacional, em Brasília, depois de oito dias de viagem. Bastante emocionado, Waldir Bouhid, comandante da caravana, ao ser abraçado por Juscelino, que estava radiante de alegria, disse-lhe apenas: “Presidente, missão cumprida”.
           No dia dois de fevereiro, houve em Brasília um acontecimento de significação excepcional na vida brasileira – uma verdadeira festa cívica de integração nacional. Brasileiros de todos os quadrantes, partindo de Uruguaiana, Porto Alegre, Belém do Pará, Fortaleza, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Cuiabá, Campo Grande – para só citar alguns pontos extremos que até então não se tocavam por laços rodoviários – marcaram de modo eloquente um acontecimento histórico: o final da condição de isolamento em que viviam as nossas populações.
           Outro fato bastante significativo: muitos dos integrantes das caravanas eram elementos que não acreditavam na rodovia de ligação Norte-Sul do País. Engajaram-se na coluna como novos São Tomés: queriam ver para crer. De um deles sabemos que estava convencido de que a viagem da Coluna Norte seria uma farsa bem engendrada e que as viaturas e os passageiros seriam transportados de aviões de um ponto para outro da selva, onde só existiam os campos de pouso, abertos de 100 em 100 km. Para esse desconfiado foi uma agradável decepção aquele sulco gigantesco na floresta que parecia intransponível...!

Nota
: No alto da página Imagem histórica de fevereiro de 1959:o presidente da República Juscelino Kubitschek (c) visita as obras de construção da Rodovia Belém-Brasília. Waldir Bouhid está um pouco atrás e à direita. O estradão principiava de ser aberto pelos mateiros sapadores

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(*) Texto elaborado a partir de informações e apontamentos fornecidos pela Dra. Clara

Pandolfo, que foi Diretora do Depto. de Recursos Naturais da SPVEA/SUDAM

domingo, outubro 19, 2014

CARTAS INDIGNAS

Maria e José
Osmar Jr – Jornal Diário do Amapá (19/10/2014)
 www.youtube.com/watch?v=3KTHR3OcRvo

Não perderás de vista a história, seja em pedra ou pergaminho, seja em ouro ou prata, lembrarás de quem a fez como quem lembra de parentes, ancestrais ou heróis. Tem que ter algo assim escrito em algum lugar nas montanhas. Maria e José não são deuses, são santificados, pois os católicos os tem como santos, e santo para os católicos é quem cometeu um ato corajoso de obediência, bravura ou amor perante Deus, mesmo que na marra, como aquele homem Ajudando Jesus a carregar sua cruz ou Jonas que pensava poder fugir de Deus, esses personagens são lembrados e festejados pois o povo gosta mesmo é de festa e feriado. Tradições católicas, como imagens de santo, datas festivas, procissões que vieram com os portugueses, acabam confundindo alguns que se apegam mesmo é a imagem. Mas tudo isso é o poder da cultura e da fé – não deve ser levado a mal.
No Pentateuco judaico, a Bíblia diz para que não adoremos os ídolos de ouro ou prata, com um pouco de conhecimento sabemos que se referem aos ídolos egípicios, pois havia a escravidão de Israel que era um povo subjugado por faraó que, aliás, não é só religião é uma raça, é sangue. Alguns evangélicos pensam ser judeus, eu nunca serei um levita, não sou da casa de Levi. A meu ver trazemos a mulher (a deusa) dentro de nós porque desapareceram com elas da história, e parece que a Igreja se prepara, através de Maria, para revelar que a mulher é mais importante do que se imagina na Historia do Cristianismo. Continuamos com esse preconceito. Essas imagens não concorrem com Jesus, são representações de gente humilde ligadas a ele. Maria e José simbolizam um povo perseguido por Herodes, o político matador de criancinhas, e claro que são apenas símbolos culturais da igreja, acabam sendo cultuados. Dê ao povo uma centelha de fé e ele transformará em uma gigantesca fogueira.
E se a Igreja tivesse modificado e escondido boa parte da História de Jesus? Os apócrifos, abalaria nossa fé? Não, claro que não. A fé e como um órgão humano, um órgão vitalício, e não se abala nem com a morte. Jesus sempre será seguido porque é um rabi suave, leve, amoroso e veio aos pecadores. É a mais linda História de Deus. Sua profecia foi cumprida e pronto.
A fé vem direto com a gente do cosmos vivo, que não respira, não tem carne, não tem voz humana, mas existe perenemente, pra nosso eterno desentender. Como diz o padre Aldenor, não tente com sua mente limitada entender Deus, só acredite, tenha fé, faz bem, fale com ele.
As imagens dos santos católicos não concorrem com sacerdotes, com rabinos, pastores ou pai de santo. Chutar uma imagem é pecado, você pode estar chutando uma obra de Aleijadinho, é arte. É evidente que temos uma cultura religiosa portuguesa formatada; todas as cidades brasileiras, principalmente na Amazônia, festejam personagens bíblicos, e nossos nomes também são cristãos,. são Josés, Marias, Tiagos, agora com os evangélicos também temos Obedes, Miqueias, Zacarias, Saras...Acredite, cultura é algo forte – a religião é cultura.
Um amigo meu estudioso do assunto falou que se o fanatismo religioso virar droga na cabeça do povo, haverá o dia de caça às bruxas e muita gente vai morrer queimada, pois a história se repete. Católicos de ontem, radicais de hoje. Mas temos uma harmonia religiosa melhor que a política. Só não vale radicalizar. Vivamos em paz.
Quer saber? Quando converso com um pescador, carpinteiro, barqueiro, qualquer operário, entendo porque Jesus se chegou a eles, é pelo fato de que eles aprendem e ensinam a vida da forma mais simples que existe, trabalhando. Essa é a maior religião, o trabalho. Quer crescer? Dê bom dia ao pastor e vá trabalhar, pare de gastar com farra, ponha suas ideias em prática, e depois mande algum pra ele em nome de Deus.
Então Marias e Josés de Macapá, e do mundo inteiro...parabéns, parabéns por uns nomes tão belos, de uma mulher e um homem que assumiram a guarda daquele que nunca vimos em corpo, não sabemos como era, mas até hoje sua história permanece em toda a humanidade, pois ele não pertence a nenhuma empresa ou Igreja, ele pertence a quem acredita nele. E mesmo sem saber escrever, escreveu sua história pelas mãos de Deus e seus anjos, pois ficaram nas pedras e nos pergaminhos, e seu pai e sua mãe se chamavam Maria e José. Está escrito.
Não perderás de vista a história, seja em pedra ou pergaminho, seja em ouro ou prata, lembrarás de quem a fez como quem lembra de parentes, ancestrais ou heróis. Tem que ter algo assim escrito em algum lugar nas montanhas. Maria e José não são deuses, são santificados, pois os católicos os tem como santos, e santo para os católicos é quem cometeu um ato corajoso de obediência, bravura ou amor perante Deus, mesmo que na marra, como aquele homem Ajudando Jesus a carregar sua cruz ou Jonas que pensava poder fugir de Deus, esses personagens são lembrados e festejados pois o povo gosta mesmo é de festa e feriado. Tradições católicas, como imagens de santo, datas festivas, procissões que vieram com os portugueses, acabam confundindo alguns que se apegam mesmo é a imagem. Mas tudo isso é o poder da cultura e da fé – não deve ser levado a mal.
No Pentateuco judaico, a Bíblia diz para que não adoremos os ídolos de ouro ou prata, com um pouco de conhecimento sabemos que se referem aos ídolos egípicios, pois havia a escravidão de Israel que era um povo subjugado por faraó que, aliás, não é só religião é uma raça, é sangue. Alguns evangélicos pensam ser judeus, eu nunca serei um levita, não sou da casa de Levi. A meu ver trazemos a mulher (a deusa) dentro de nós porque desapareceram com elas da história, e parece que a Igreja se prepara, através de Maria, para revelar que a mulher é mais importante do que se imagina na Historia do Cristianismo. Continuamos com esse preconceito. Essas imagens não concorrem com Jesus, são representações de gente humilde ligadas a ele. Maria e José simbolizam um povo perseguido por Herodes, o político matador de criancinhas, e claro que são apenas símbolos culturais da igreja, acabam sendo cultuados. Dê ao povo uma centelha de fé e ele transformará em uma gigantesca fogueira.
E se a Igreja tivesse modificado e escondido boa parte da História de Jesus? Os apócrifos, abalaria nossa fé? Não, claro que não. A fé e como um órgão humano, um órgão vitalício, e não se abala nem com a morte. Jesus sempre será seguido porque é um rabi suave, leve, amoroso e veio aos pecadores. É a mais linda História de Deus. Sua profecia foi cumprida e pronto.
A fé vem direto com a gente do cosmos vivo, que não respira, não tem carne, não tem voz humana, mas existe perenemente, pra nosso eterno desentender. Como diz o padre Aldenor, não tente com sua mente limitada entender Deus, só acredite, tenha fé, faz bem, fale com ele.
As imagens dos santos católicos não concorrem com sacerdotes, com rabinos, pastores ou pai de santo. Chutar uma imagem é pecado, você pode estar chutando uma obra de Aleijadinho, é arte. É evidente que temos uma cultura religiosa portuguesa formatada; todas as cidades brasileiras, principalmente na Amazônia, festejam personagens bíblicos, e nossos nomes também são cristãos,. são Josés, Marias, Tiagos, agora com os evangélicos também temos Obedes, Miqueias, Zacarias, Saras...Acredite, cultura é algo forte – a religião é cultura.
Um amigo meu estudioso do assunto falou que se o fanatismo religioso virar droga na cabeça do povo, haverá o dia de caça às bruxas e muita gente vai morrer queimada, pois a história se repete. Católicos de ontem, radicais de hoje. Mas temos uma harmonia religiosa melhor que a política. Só não vale radicalizar. Vivamos em paz.
Quer saber? Quando converso com um pescador, carpinteiro, barqueiro, qualquer operário, entendo porque Jesus se chegou a eles, é pelo fato de que eles aprendem e ensinam a vida da forma mais simples que existe, trabalhando. Essa é a maior religião, o trabalho. Quer crescer? Dê bom dia ao pastor e vá trabalhar, pare de gastar com farra, ponha suas ideias em prática, e depois mande algum pra ele em nome de Deus.
Então Marias e Josés de Macapá, e do mundo inteiro...parabéns, parabéns por uns nomes tão belos, de uma mulher e um homem que assumiram a guarda daquele que nunca vimos em corpo, não sabemos como era, mas até hoje sua história permanece em toda a humanidade, pois ele não pertence a nenhuma empresa ou Igreja, ele pertence a quem acredita nele. E mesmo sem saber escrever, escreveu sua história pelas mãos de Deus e seus anjos, pois ficaram nas pedras e nos pergaminhos, e seu pai e sua mãe se chamavam Maria e José. Está escrito.


quarta-feira, outubro 15, 2014

CONTOS DE CÉSAR BERNARDO DE SOUZA 4

O EMPRESÁRIO QUE SUMIU NA INTERNET
(Da Série: Para ler na fila)
César Bernardo de Souza

Cipriano Latuf era um comerciante muito conhecido na região por causa do grande volume de negócios que realizava com boi gordo, era popular porque além de estar sempre bem humorado não se negava ao atendimento a qualquer pessoa que lhe procurasse. Só não tolerava quem lhe ficava devendo indefinidamente.
Muitos outros grandes comerciantes e industriais mineiros consideravam-no dono de grande talento e potencial subaproveitados para o comércio. Parecia-lhes um desperdício ver aquele homem misturado à realidade de uma região tão atrasada, mesmo em um pais parado no tempo como o Brasil. As pessoas dali distanciavam-se muito pouco do primitivismo, usavam animais para o transporte, mantinham nos quintais boa parte do provimento alimentar, recorriam muito mais aos medicamentos caseiros do que ao balcão de farmácia e, quase realizavam todos os seus negócios na base do escambo.
Mesmo vivendo nesse meio Latuf progredia rapidamente, suas transações comerciais eram muito mais calcadas no comércio atacadista embora fosse comum vê-lo atendendo pessoalmente clientes varejistas que buscavam satisfazer suas necessidades mais comezinhas, de ultima hora.
Como de costume Latuf foi a Belo Horizonte realizar novos negócios, foi lá que "conheceu" efetivamente a Internet. É claro que já tinha ouvido falar desse fenômeno multimídia do fim do século mas até então não a tinha acessado. Navegar, não tinha ainda navegado.
Em Belo Horizonte a sua fama de grande comerciante já tinha se espalhado, quiseram convence-lo sobre as conveniências de informatizar os seus negócios e mais: coloca-los na Internet. Depois que ouviu sobre o quanto cresceriam seus lucros e mais de segurança para o seu dinheiro internauta e de quantos negócios ele mesmo poderia realizar " sem sair de casa", Latuf cedeu.
Na oportunidade, lá mesmo em Belo Horizonte fez contatos via Internet com alguns de seus clientes no Canadá, Japão, Estados Unidos, França, Itália e Brasil, ajudado que foi pelo escritório de informática NOVHORIZOMÁTICA, o mesmo que lhe venderia, instalaria, treinaria pessoal e manteria operacionalmente o novo escritório.
Os consultores que o atendiam, gente muito esperta, pediram informações especiais ao Latuf sobre seus clientes, nada muito alem de nomes, telefones, endereços e outros pequenos detalhes de identificação. Instalaram o Latuf em cadeira fofa e deram-se a navegar pela internet mundo afora, em poucos minutos os consultores ajudados de perto pelo Latuf organizaram uma adress list dos clientes indicados:
Olha aí Latuf, todos os seus fornecedores tem um site na Internet. Vamos dar uma olhada em seus e-mails. Falta o seu.
Latuf, naturalmente, não entendia nada mais via a tela do computador ganhar vida à sai frente à medida que o operador digitava dábliodáabliodáblioqualquercoisapontocom , ou pontocompontobeerre ou pontogov ou pontonet.
Pronto, o T.C. Wersteen está acessado, vejamos que produtos estão sendo lançados no mercado, seus preços, condições de pagamento, prazos de entrega, etc.
Imediatamente Cipriano Latuf passos a se chamar latuf@bol.com.br , desse momento em diante sua vida mudaria para sempre. Ali mesmo, bem acomodado na cadeira fofa, Latuf era um misto de criança e palhaço, dava pulinhos na cadeira alem de a todo instante abraçar efusivamente os três consultores que lhe proporcionavam tamanha felicidade. Quando ele pensou que já se empanturrara de internet, foi indagado:
- Sr. Latuf, gostaria de conversar com Mr. Scott? Ele está em Nova Iork, ficaria alegre com a sua cortesia.
Latuf e Scott conversaram como se fossem velhos amigos, a fisionomia de ambos estava na tela, pareciam joviais apesar de quarentões. O tradutor simultâneo, eletrônico, embasbacou Latuf no inicio da operação, depois serviu para expressar a Scott um velho descontentamento:
- Muita demora no pagamento, ô Scott. Não fosse a inflação brasileira, não poderia continuar com os nossos negócios. Você diminui os meus lucros.
Okay Latuf, by by.
Depois, o embasbacado Latuf falou com o Sr. Nakamura, que estava em Korbe, no Japão. Fechou excelentes negócios com ele, seu talento para negociar lembrou-lhe recomendar a Nakamura o e-mail de Mr. Scott, com a proposição de se ocupar apenas um navio no mesmo contrato de frete, para trazer-lhes as próximas mercadorias do Japão e dos Estados Unidos até o Brasil. Antes que Nakamura o esnobasse, ele próprio sugeriu devolver no mesmo navio e mediante mesmo contrato de frete, carne bovina, mármore azul e soja, respectivamente para as empresa de Mr. Scott e Sr. Nakamura nos Estados Unidos e Japão.
Já à noitinha, quando Latuf deixou as dependências da NOVHORIZOMÁTICA sentia-se aliviado por ter ultimado negócios com os parceiros franceses, canadenses, italianos, e brasileiros "sem sair de casa".
Dali retornou para cidade mineira de Volta Grande, tendo por leitura de bordo um glossário de informática em bela encadernação, presente que o dr. Evandro metera-lhe debaixo do braço como brinde e reconhecimento pelo excelente negócio que fizeram, objetivando a instalação de estações de computadores, treinamento de pessoal e manutenção de todo sistema a ser instalado num prazo máximo de doze dias.
Latuf era um gênio, tinha excelente memória principalmente para números. Dizia-se na cidade que ele podia lembrar seis mil números, entre contas bancarias, placas de carros e telefones. Não esquecia de jeito nenhum as data dos aniversários de seu interesse, quantias que lhe deviam, volumes de mercadorias que movimentava no mês, mas para nomes não tinha tão boa memória assim.
Daí em diante Latuf começou a desaparecer das vistas das pessoas daquela pequena cidade, onde antes era visto por uma mesma pessoa dez q quinze vezes num mesmo dia. Não era mais visto porque não saía de casa, praticamente mudou-se para a saleta onde mandou instalar os computadores recém adquiridos. Quando ia ao banheiro levava o telefone celular e o not-book.
Saudalina, a empregada da casa a tantos anos passou à condição de porta voz do Latuf no período que ele se isolou completamente para se dedicar em tempo integral ao aprendizado necessário ao rápido domínio da maquina multimídia. A bondosa senhora, com mais de sessenta anos, recebia no portão principal de acesso à casa todas as demandas ao Sr. Latuf.
Pronto! Latuf já era um internauta de qualidade, a cidade inteira tinha visto chegar à sua casa aquelas tralhas todas, tantas peças estranhas e tanto isopor para a prevenção aos impactos danosos aos equipamentos durante o transporte rodoviário desde Belo Horizonte.
A garotada sempre criativa em tornar desafios em brincadeiras, imediatamente transformou em "neve" a montanha de isopor que se ia formando no depósito de quinquilharias do Latuf. É certo que a garotada, apesar do sol quente e do calor tropicalíssimo, arranjou uma brincadeira interessante, contagiando crianças de todos as idades que se viam correndo uma de encontro a outras com as mãos cheias de neve. Era bonito ver as crianças dominadas, quase transtornadas pela alegria, umas com os cabelos impregnados de pequenas partículas de neve, outras já muito suadas exibiam os corpos delicados pontilhados de pó de isopor.
Latuf assistia a toda essa algazarra, levado pelo bom coração que possuía deixava-se abstrair mostrando-se estático atrás da vidraça da janela do segundo pavimento da sua casa que dava para a rua onde acontecia a brincadeira das crianças. Parecia que estava no meio da garotada, imperceptivelmente soltava gritinhos junto com as crianças mais exaltadas, dava pulinhos sem tirar os pés do chão, esgava sorrizinhos quando pedaços da brincadeira com "neve" resultava em tombos espetaculares que não machucavam. Um tempo depois Latuf mandou instalar uma persiana naquela e noutras janelas por que não queria mais ser visto da rua, da mesma forma que não desejava mais deixar que a brincadeira das crianças quebrasse a sua concentração na navegação internáutica.
Com uma pequena providência aqui e outra grande ali, Latuf foi se isolando do mundo antigo, basicamente ele só podia ser visto pelos seus três últimos empregados, desde alguns dias atrás transformados em assessores. Sua vida já era quase virtual, dispensara vinte e nove empregados e tinha planos para dispensar os outros dois, o José Rafael e o Pedro Gomes.
A bem da verdade, os empregados não foram despedidos assim sem mais nem menos. Latuf já tinha sido penalizado pela Justiça do Trabalho, sentia pavor só de pensar em comparecer perante juizes e ainda ter que pagar indenizações que para ele era sempre absurdas. Assim, decidiu que seus empregados urbanos poderiam permanecer na folha de pagamentos desde que se transferissem para a lida diária nas fazendas de cria e engorda de gado. Homens e mulheres que quisessem aceitar o desafio dos currais poderiam continuar com ele, em caso contrario o pedido de dispensa restava com alternativa, um caminho pelo qual praticamente todos os seus antigos empregados , entre eles alguns bons amigos, caminharam de costa para o "novo" Latuf.
Para melhorar sempre mais o seu desempenho informático, Latuf se iniciou num linguajar muito estranho, misto de inglês, eletrônica e masoquismo. Até pouco antes se vocabulário era carregado em palavras como arroba, peso vivo, boi em pé, peso vivo, porção eviscerada, lote recém adquirido, lote da pronta entrega, partida refugada, nelore branco, pasto batido, cinco mil "boi"... Agora, apesar de ainda tropeçar um pouco nas palavras, Latuf perdia em palavras como compiler, compress, connect time, bridge, site, afress, planne, bounce, animation, anonymous, daendon, firewall,frame, gigabyte, gigaflops, hacker, host, marphing, quary, postmarste, talmet, Word Wide Web. Obviamente sabia-lhes os significados.
Latuf ficou muito mais rico, porém seu dinheiro era eletrônico e internauta, fazia tempo que não segurava nas mãos uma nota de cem dólares. Via internet ia a supermercados, recebia e pagava contas, movimentava-se nos grandes bancos nacionais e internacionais, ouvia e assistia shous de música nacional caipira e country americana, controlava a movimentação de gente e de bois nas suas varias fazendas e até estava "amando" pela telinha de cristal liquido.
Já bem dentro das noites, Latuf costumava plugar-se a Evelyn Sacs, um seu novo amor, australiana que "conhecera" virtualmente por ocasião da realização de uma operação de venda de uma grande manada de bois gordos a ser entregue a um frigorífico filipino. Evelyn era a fazendeira proprietária dessa manada, achava-se impedida pelo fisco filipino de operar negócios no país.
Certa vez navegando na Internet, encontrou Latuf prontamente disponível para "comprar" seus bois e logo revende-los sem maiores atropelos fiscais no mesmo mercado. A entrega da boiada ao destinatário seria tarefa da terceirização, facilmente encontrariam alguém que fizesse isso por eles já que a Internet estava cheia de e-mails de empresas e pessoas especializadas nessas operações.
A partir daí a bonita e rica Evelyn dedicou-se ao coração do feliz Latuf, tinham se apaixonado, viam-se todos os dias, faziam sexo a cada encontro, tudo pela Internet. O desejo que Latuf tinha em ter filhos com ela ainda não tinha sido motivo de discussão entre eles.
Assim, a vida de Latuf ia num crescendo vertiginoso de sucesso e felicidade, tudo tão grandemente absurdo a ponto de não perceber que o seu mundo real estava parado. Por causa desse enlevo, não viu que junto de sua casa, do outro lado da rua, erguia-se um prédio novo, obra estranha avançando muito mais para as profundezas do chão do que para o céu. No dia da inauguração houve festa, mas Latuf nem percebeu a grande movimentação de maquinas chegando à ultima hora. Ali instalou-se um luxuoso escritório de consultoria ambiental tocado a dezesseis mãos, seis das quais femininas.
O tempo passou até que um dia Latuf "foi" a uma festa na mansão de Evelyn, juntando-se descontraidamente a vários banqueiros importantes do mundo financeiro a que ele passou a pertencer por causa das facilitações que a Internet fez acrescentar à fortuna que ele já possuía. Tantas vezes ouviu a informação de que os índices das bolsas de valores despencariam, atingidas pelo "efeito asiático" , com isso provocando perdas astronômicas a homens ricos como ele que, ao final de minutos estava com dor de cabeça e vertigens. Ouviu ainda que de nada adiantaria deslocar suas fortunas dos bancos sediados nos famosos "paraísos" fiscais espalhados pelo mundo. Ao contrario, seria até perigoso.
Desesperado o Latuf procurava conforto na habilidade extrema de Evelyn em manobrar homens como aqueles ali reunidos em situações exasperantes como as que ainda viriam.
Falando com exclusividade Evelyn conseguia lhe transmitir alguma tranqüilidade ao mencionar a existência de códigos secretíssimos que o "sistema" dispunha para ludibriar crises semelhantes. Latuf, apaixonado, acreditava.
Nos dias seguintes nem sexo virtual conseguiu fazer apesar das ciosas provocações que a amada lhe fazia. Virtualmente, Evelyn quase lhe sugava todo sangue do corpo e mesmo assim nada adiantava. Latuf estava caído, não se excitava de jeito nenhum. Mudou de site.
Num dado momento, navegando no outro site, Latuf se viu diante de um estranhíssimo relatório sobre algumas de suas contas no exterior. Estranhou porque não se lembrava de ter solicitado nada àquele respeito, contudo a leitura que se seguiu foi prazerosa até porque empilhavam-se no rodapé do paper as assinaturas do gerentes dos bancos que guardavam aquelas contas milionárias. As oito assinaturas , que ele conhecia bem, tinham e estavam na configuração internáutica: topick on someons....
Latuf sentiu cheiro de maracutaia, sem mais e nem menos viu-se ameaçado pela tecnologia que o tinha transformado num sujeito novo. De forma inevitável ele foi comandado a seguir instruções, sob pena de ter algumas de suas contas deletadas e ainda causar a morte de uma pessoa de sua maior estima. Naquele dia mesmo Latuf compreendeu que estava irremediavelmente enredado em suas relações internáuticas.
Saudalina, empregada da casa, estranhou muito vê-lo atravessar a sala grande do andar debaixo, sair pela porta principal da casa e desaparecer no horizonte. Mas não se importou tanto assim, compreendia bem as transformações que levaram seu patrão para o mesmo patamar daquelas pessoas estranhas, parecendo cósmicas, que habitualmente estão na televisão. Fechou a porta, foi à cozinha tomar o lanche da noite, passou de volta apagando as luzes e foi dormir.
Não se vendo vigiado, Latuf retornou ao ponto em frente a sua casa porém dirigindo-se ao prédio novo que servia ao escritório de consultoria ambiental. As portas eletromagnéticas abriam-se à sua passagem, cada vez mais ao subsolo. À visão da porta grande, ao fundo do corredor, tirou do bolso um cartão magnético de acesso a uma de suas contas no exterior, introduziu-o na fenda indicada, esperou um tantinho a porta abrir-se e entrou.
Muito surpreso ficou ao se ver diante da réplica perfeita do seu próprio escritório de trabalho, tudo perfeitamente igual, até parecia mais real por causa esplendorosa presença de Evelyn que estava ali bem à sua frente, em carne e osso e lágrimas nos olhos. Muito mais bonita que na virtualidade.
Dois outros homens estavam presentes, apresentaram-se cortesmente como engenheiros eletrônicos, porém anunciaram que aquela era uma operação e seqüestro cujas vitimas eram Evelyn e ele. Recomendaram que Latuf não esboçasse nenhuma reação, qualquer gesto brusco pareceria a eles uma desobediência grave, com voz dura lembraram a Evelyn e a Latuf que não recusassem ao cumprimentos de tarefas, de jeito nenhum.
Passaram, então, a demonstrar ao pobre Latuf que caíra num golpe perfeito, inédito, limpo, civilizado s sem a menor chance de erros. Na tela dos computadores lá existentes, apareciam os mesmos banqueiros que dias antes Latuf vira sorridentes na festa de Evelyn, na Austrália. Depois viu um deles explodir literalmente ao comando de teclas acionadas bem ali, diante de seus olhos, era parte de uma demonstração planejada para convencê-lo do poder que tinham sobre as pessoas participantes daquela trama. E, claro, explicavam tudo ao Latuf com estudada paciência.
Usando gestos, um dos engenheiros seqüestrador mandou que Evelyn se aproximasse para que Latuf a visse por inteiro e com mais detalhe olhasse a manchazinha escura que se destacava bastante logo abaixo da sua pele muito branca.
É um chip, Sr. Latuf. Um outro semelhante acaba de explodir Mr. Laert lá em Londres, como o senhor acabou de ver. Informática também é isso, serve ao cravo e à ferradura.
Sem mais delonga, mas com muito cuidado outro daqueles chips foi aplicado abaixo da orelha esquerda do Latuf. Antes do início da operação, Latuf foi advertido de que se esboçasse qualquer reação Evelyn seria explodida ali mesmo, ao comando de uma tecla que ele, Latuf acionaria. Isso lhe doeu mais, não podia sequer imaginar sua amada desfazer-se em milhares de pedaços por causa de atitudes suas, além disso nem sabia ainda em troca de que deveria concordar com as exigências daqueles homens.
Mas não tardou quase nada, logo que terminaram de demonstrar ao Latuf o que mais se poderia realizar com o auxílio da Internet, fizeram-lhe a proposta:
O preço do eu resgate e o de Mis. Evelyn será dado pelo sorteio que vamos realizar com a sua ajuda. Queremos ver transferidos para as contas que vamos lhe indicar todos os dólares que você tiver em apenas três de suas contas, as três que vamos sortear são contas no exterior, bem entendido. Em caso contrário ninguém sai ganhando, o senhor e ela morrem, todas as suas contas serão deletadas e ainda explodiremos algumas pessoas por aí por conta do nosso prejuízo com os gastos que tivemos para montar tudo isso. Concordando conosco, o senhor fica ainda com muito dinheiro, salva a pele e mais tarde terá sua Evelyn de volta, sã e salva.
Latuf não tinha alternativas, aqueles homens eram poderosos não só porque dominavam largamente o conhecimento eletrônico mas principalmente porque se valiam dele para praticar o crime internáutico. Coisa nova ainda, sem quaisquer cuidados em todo mundo. Nenhum código penal, nenhum de processo civil no mundo inteiro previa o crime internáutico daquela natureza e claro, nem a correspondente penalização ao "criminauta".
Latuf, então, negociou. Os seqüestradores saíram com entram, levando Evelyn. Latuf ficou diante de uma porta para a liberdade programada para ser aberta dali à vinte e quatro horas. Todas as comunicações com o local logo estariam cortadas, principalmente o telefone por causa da internet, que estava bem à sua frente, nos computadores. Feita a operação de "resgate", vários milhões de dólares migraram das contas do Latuf. Ao fim, cinicamente, houve apertos de mãos e tapinhas nas costas pelos bons negócios realizados:
Latuf, foi um prazer negociar com o senhor.... ganhou a vida e nós a experiência.
À malandragem, como sempre, abandonou o local do crime com sorriso no rosto. Quem por ultimo desapareceu no vão da porta foi Evelyn, também com um sorriso matreiro estampado na fisionomia. Latuf, mesmo por trás da visão embaçada daqueles que estão vivendo grandes paixão, não pode deixar de perceber o riso debochado espalhado nos lábios da amada. Só ali, naquele momento mais crucial de sua vida compreendeu que Evelyn era uma quadrilheira.
Quando a porta se fechou definitivamente, Latuf quis ter um tempo para lamentar tamanha brutalidade contra os seus sentimentos, queria explodir a própria cabeça batendo-a contra parede até limpar o corpo e a alma das manchas deixadas pelas lembranças da prática do sexo virtual ilimitado entre ele e aquela mulher espetacular. Queria, em fim, acordar do pesadelo internauta em que se metera... mas já era tarde.
Mal a porta se fechou o chão começou a abrir-se, o piso de marmorite deslizava lento para dentro da parede oposta como se fosse a tampa de um poço abrindo e sumindo. O chão ia engolindo tudo, computadores, cadeiras, mesas, armários, adornos e tudo mais, iam caindo para o nada num mergulho sem fim. Em pouco seria ele, Latuf.
O pobre homem queria ter uma esperança no silêncio, não ouvia o som que produziam os objetos batendo no fundo do abismo, passou a acreditar que o buraco era raso. Mas olhar ele queria, aliás não podia, não suportaria. Estava encurralado entre a parede e o terror, pisando num chão já quase inexistente olhava aterrorizado a parede oposta aproximando-se inexoravelmente. Revelando-lhe um Latuf no mundo dos vivos, dos mortais comuns, pela última vez.
Depois que o buraco abissal o engoliu, o piso de marmorite regurgitou-se da parede, recobriu o vazio sepultado de vez o empresário Latuf que ousou acreditar ser possível viver virtualmente. Atrás da grande porta ficou para sempre o mistério. Nas cinzas do Latuf insepulto perante nos termos dos costume regionais ficou a história do primeiro internauta de Volta Grande.
Quando no dia seguinte Saudalina acordou, sentiu no peito uma certa angustia agravando mais a idade avançada mas não desistiu da lida de todos os dias. No horário habitual rumou para o escritório da patrão tendo às mãos a bandeja com desjejum, contendo apenas café, leite, pão, um ovo frito e uma banana conforme era gosto do Latuf. Saudalina tinha por ele um sentimento de mãe, de onde parecia tirar forças para subir a escadaria com o coração batendo forte por causa da responsabilidade que assumira com a saúde dele, embora não escondesse que sentia um orgulho incontido por tratar-se- o Latuf, de um sujeito caipira determinado o suficiente para movimentar e ganhar fortunas sem sair de casa.
Por causa da necessidade de ter as mãos na bandeja, à soleira da porta do escritório anunciou-se com um leve toque do tamanco na peroba grossa. Quase ao mesmo tempo empurrou a porta e entrou, espantando-se muito com a ausência de Latuf, ainda tão cedo. Quer dizer, meia ausência. Latuf podia ser visto sorridente dentro do monitor, atrás da telinha, navegando na Internet. Algumas outras figuras humanas apareciam também, a varias delas Saudalina em pessoa tinha tido a oportunidade de servir canapés e uísque ali mesmo naquela casa de Latuf.
Até onde pode entender as explicações que o patrão lhe dera tantas vezes sobre o "milagre" da eletrônica e as infinitas possibilidades da informática, Saudalina considerou provável que o Latuf estivesse mesmo em algum lugar do mundo participando de outras reuniões de negócios com aquela turma de endinheirados, invencionistas, que ela via ali na tela.
Veio na lembrança os esclarecimentos de Latuf sobre o monitoramento que através daquelas máquinas era possível fazer sobre o rebanho, vigilância cerrada em cima de cada fazenda e até sobre os empregados. Carretas transportando gado para o abate, ela mesma tinha acompanhado em todo o trajeto com o detalhe de que o cronômetro do monitor ia correndo conforme o tempo real, isso o foi quando Latuf quis demonstrar a ela as razões pelas quais tinha dispensado tantos empregados antigos e reenquadrados outros das empresas LATUF & LATUF LTDA.
Assim, no entender de Saudalina, estavam reunidos Latuf e todos os seus amigos empresários na conformidade do inexorável compasso do reloginho do computador, pareceu-lhe que tudo estava bem. Considerando algum fuso horário, a impressão que teve foi a de que tudo aquilo estava acontecendo ao vivo, apenas não podia saber quando o patrão saíra e menos ainda quando voltaria. Ao sair Saudalina fechou a porta do escritório e desviou toda a sua atenção para o telefone, imaginando que Latuf se lembraria de passar-lhe orientações se tivesse que demorar muito para retornar.
Ao longo dos dois primeiros dias, vozes diferentes chamaram pelo telefone, sempre pedindo e dando informações sobre paradeiro de Latuf:
Cadê Latuf? Ele ainda não chegou? Na certa resolveu dar uma paradinha em Madri, ele andava pensando fazer isso.
Veio então o inesperado, na transição da primavera para o outono eram comuns as tempestades acompanhadas de ventos fortes, relâmpagos e trovões. Conheciam-se dias tenebrosos, inteiramente toldados por maciços de nuvens de chumbo, densos e baixos seguidamente cortados de alto a baixo por raios perigosamente bonitos. Antes que eles se perdessem no fim do horizonte, o trovão ecoava amedrontador botando no ar uma mensagem de pavor. Em dias como aquele os cuidados das pessoas eram dois: cobrir todas as superfícies espelhadas no interior de quaisquer onde tivessem que permanecer e trazer para o alcance das mãos as velas de cera ou de parafina e fósforos, porque tão certo quanto os trovões depois dos relâmpagos era o corte no fornecimento de energia elétrica para a cidade inteira enquanto durasse a tempestade.
Nesses dias Saudalina Parecia muito mais jovem, percorrendo hábil e rapidamente toda a casa na incansável tarefa de cobrir espelhos e espalhar candelabros por todos os cômodos da enorme casa do Latuf. Fechava todas as janelas da casa, verificava as portas, desligava os muitos aparelhos eletroeletrônicos e só depois recolhia-se ao quarto de dormir, lá permanecendo até a completa normalização da situação.
Nas trevas momentâneas daquelas noites o casarão do Latuf parecia fantasmagórico, as vidraças das janelas eram todas confeccionadas com vidros importados do continente africano e naqueles momentos mostravam excelência ao projetarem a luz do fogo das velas em sentido contrario, criando assim efeitos assustadores para quem se fixasse no vulto da casa, de fora para dentro. A cor de chumbo que baixava sobre a cidade por causa das nuvens pesadas ajudavam a aumentar os efeitos do espetáculo bonito, porém quase sem espectador já que as pessoas todas se recolhiam em seus cantos, fechava as janelas e também acendiam velas sem a menor disposição para contemplar o casarão do Latuf.
Passada essa ultima tempestade da derradeira primavera do Latuf sobre essa terra, ocorreu que Saudalina ao retornar ao escritório do andar superior para verificar o estado dos equipamentos, em lá chegando reencontrou todos eles devidamente plugados, embora em nenhum deles revelasse a projeção de imagens no monitor do computador que se mantinha ligados na Internet. A tela do grande monitor estava completamente apagada, levando Saudalina a compara-la com a aparência cinza daquele dia. Estranhou muito, mas nada lhe competia fazer.
Muito mais tarde voltou lá, a situação era a mesma. Resolveu confabular com um dos funcionários dos escritórios associados da empresa, que mandara chamar. Alertada pelo colega, checou o telefone exclusivo do escritório verificou que não funcionava provavelmente em decorrência da tempestade de raios, sempre drásticos para os serviços telefônicos que naquelas lonjuras consumiam em média três dias para o restabelecimento.
Naquele dia, porém, o sinal do telefone se restabeleceu logo, o mesmo ocorrendo com a imagem na tela do grande monitor do computador central sempre ligado na Internet no escritório do Latuf, mas a dele não aparecia mais. Quando o desespero autorizou Saudalina a passar o caso para a Polícia, a pobre mulher já tinha uma resposta para a clássica pergunta policial:
Quando a senhora o viu pela ultima vez?
Três dias atrás, ele estava aí dentro navegando na Internet.
Então as nossas investigações começam daí – disse um policial com uma convicção insuspeita. Foi na Internet que ele sumiu.

Macapá/agosto de 1999.


 


 

CONTOS DE CÉSAR BERNARDO DE SOUZA 1

O CONVENCIMENTO 

O homem passou ao largo do terreno desocupado que se situava muito bem em relação aos melhores endereços da cidade. As certezas que lhe ocorrem são a do abandono e a de que invadiria aquele pedaço de terra para proveito seu e da sua família numerosa.
Adiante desceu do ônibus, retornou uns duzentos metros e se deu a melhor examinar o objeto das suas recentes intenções, demorando-se uns dez ou quinze minutos nessa tarefa. Primeiro caminhou devagar na parte frontal do terreno que chegava até o meio fio lateral direito da estrada asfaltada, com o que, na verdade mediu-o com passadas regulares, cada uma chegando a cerca de noventa centímetros. Também avaliou o barulho dos carros passando a todo instante sempre em alta velocidade.
Atento para não perder a conta foi à linha de fundo do terreno marcando em voz alta as passadas, ao mesmo tempo em que memorizava os pontos e a posição da tubulação de água encanada que aflorava de quando em vez. Avaliava a distribuição da vizinhança da direita e avançava; chegando ao fundo deteve-se um pouco mais para medir com os olhos a imensidão da área, fez contas mentais e concluiu que toda extensão do terreno chegaria facilmente a dois hectares de terra nua.
A seguir tomou um punhado de terra em suas mãos, esboroou-a primeiro e depois deixou vazar por entre os dedos como se fosse uma criança brincando de fazer poeira ao vento. Outra vez se abaixou para tomar novo punhado em suas mãos, cuspiu-a seguidamente, amassou-a até torná-la uma bolinha de barro, que seguiu moldando e amassando entre os dedos. Daí, pôs-se a fazer mesuras com essa bolinha de barro amassado como se quisesse jogá-la ao ar com gestos ensaiados, exasperando-se à medida que não conseguia fazê-la despregar-se da palma da mão com safanões cadenciados.
Com a ajuda dos dedos desfez-se da bolinha de terra atirando-a a pequena distância. Depois a pisoteou até transformá-la numa lâmina que se colou à sola do calçado lhe colocando no rosto um sorriso largo. Caminhou devagar para fora da área e sem olhar para trás desapareceu entre os demais usuários da estrada.
O “teste” da poeira e depois o da bolinha de barro pegajoso tinha indicado terra muito boa para a agricultura, esse conhecimento ele trazia como cultura ancestral infalível. Era plantar e colher. Convencido dessa forma foi-se o tal homem.
Dias depois surgiu do nada uma invasão bem ali, como se fora uma variável cotidiana desse fenômeno da expansão urbana. A aparência de pobreza é a marca comum nas pessoas que formam esses pelotões de invasores urbanos, em contraste com o grau de organização e força institucional que as invasões urbanas apresentam.
Em cada uma delas existe comando, mas não se percebe a hierarquia entre os líderes, embora seja visível o apoio logístico e doutrinário recebido. Esses líderes animam a resistência, o apoio logístico garante-lhes a longevidade no posto, a doutrinação coloca trechos constitucionais lavrados da legislação específica na boca de cada um dos invasores. Daí em diante o ato de invadir terras urbanas passa a ser um movimento.
O tal homem era muito ágil e sábio, pois no dia seguinte já exibia a sua casa pronta e instalada ao fundo do terreno, com o quintal já pontilhado aqui e ali por coqueiros, bananeiras, laranjeiras e limoeiros, árvores de adorno, no geral todas já no porte de arvoretas de metro e meio. O sol ainda não estava alto e ele já lavrava a terra nas entrelinhas do plantio permanente, com o fito de ali espalhar alfaces, cebolinha, coentro, feijão de corda e batata-doce.
Aos outros seus companheiros coube tarefa quase igual, em lotes que eram menores que o seu, formando um conjunto de aspecto rural lembrando um milagre irrefutável porque ao final daquele mesmo período agrícola já sairia dali grande volume de frutas, legumes, verduras e ovos, frangos, patos e leitões. No dia anterior tudo lá era baldio, um retrato heriveltiano[1] do abandono programado e combinado com a especulação imobiliária urbano palaciana. Tão de repente quanto o surgimento dos invasores brotou a polícia, não se sabe de onde exatamente surgiu aquela centena de soldados estranhamente desarmados.
O comandante da soldadesca entrou sozinho na área, dirigiu-se ao líder dos invasores - o tal homem - e falaram-se por uns quatro ou cinco minutos. Não gesticularam forte e nem alteraram o tom da voz; olhavam especialmente atentos para um enorme caminhão que manobrava para posicionar-se estrategicamente num ponto ao fundo da área invadida, quase junto à parede da casa recém construída .
Estabelecido o entendimento entre ambos, o comandante pediu o megafone e ergueu o polegar da mão esquerda mostrando-o à tropa que imediatamente se movimentou cercando literalmente toda a área. O polegar erguido era um código: duas colunas se formaram de braços dados, dispondo fileiras de soldados frente a frente a pessoas no interior da invasão e populares que se aglomeravam ao derredor. Assim, bunda a bunda, costa a costa a soldadesca desarmada pôde ver a cara de espanto dos populares, quando gentilmente o próprio líder dos invasores empunhou o megafone e ordenou que todos os seus liderados se recolhessem ao interior dos seus barracos e permanecessem lá com os seus aparelhos de televisão ligados em qualquer canal.
Estrategicamente o comandante empurrou devagar o líder em direção ao seu próprio barraco para que também ele cumprisse a ordem. Estudadamente fingiu esquecer de resgatar o megafone de suas mãos, dirigindo-se a passos ensaiados da cadência militar ao caminhão tipo baú, pintado nas cores da corporação e estrategicamente ocupado por policiais militares devidamente identificados pelo fardamento que usavam.
Acionados por comandos eletrônicos autorizados e ordenados pelo comandante da operação, foram surgindo no teto e nas laterais do veículo instrumentos especiais de uso em filmagens e transmissões televisivas. Em segundos, em todas as telas dos aparelhos de televisão dos invasores e da vizinhança num raio de até quinhentos metros, estavam as imagens mostrando o massacre de agricultores sem-terra ocorrido recentemente no Norte do país. Detalhes do massacre iam passando lentamente: ora com um policial militar atirando friamente contra os lavradores, ora com lavradores caindo mortos ao chão, ora mães, esposas e filhos chorando desesperadamente sobre corpos caídos debaixo de insistente tiroteio sobrecabeça. Depois de exatos trinta minutos de exibição as imagens desapareceram das telas, o caminhão recolheu os seus tentáculos eletrônicos, o cerco policial se desfez e o silêncio ficou na área da invasão até a noite.
No dia seguinte, quando a cidade reacordou para a rotina urbana, na mesma área nada e nem ninguém se viu. Tudo era exatamente igual ao que foi há três dias antes: o que se via eram buracos, como covas, que receberam os pés direitos dos barracos e as culturas “permanentes”, com as quais aqueles homens e mulheres toscos pretenderam oferecer benfeitorias à nova “propriedade”. Além dos buracos (como covas no chão), abertos à espera de cadáveres, também ficou alhures num ponto qualquer da área o megafone do comandante.
Que destino tomou o tal homem, os seus companheiros e o comandante policial nunca foi possível precisar. O certo é que no endereço daquela invasão moram hoje políticos importantes, pastores evangélicos, oficiais militares e muitos, muitos homens de negócios bem sucedidos.
Lá mingúem sabe dessa história de invasão e desocupação, literalmente ninguém. Por isso lhe contei este conto.






CONTOS DE CESAR BERNARDO DE SOUZA 2

RAÍZES DA FARTURA
(OUTRO CONTO QUE LHE CONTO)
( César Bernardo )

Quem passasse naquele dia na estrada grande, a qualquer hora, mesmo que com toda atenção nos grandes e sucessivos buracos do leito da única via de acesso à cidade de Laranjal do Jari, mesmo que encantado com as arvores centenárias, principalmente as maçarandubeiras e ainda que as cutias cruzassem a estrada com a insistência habitual com que os animais silvestres faziam naquele trecho da estrada bem dentro da floresta, mesmo assim ouviriam o barulho de motores funcionando, crianças brincando, mulheres e homens tagarelando lá dentro da floresta à altura do médio rio Arapiranga.
Quem tomasse o ramal à esquerda logo junto ao enorme tronco da guarupeira, seguisse adiante até encontrar a primeira grande clareira, parecendo terra arrasada, logo encontraria os caminhões, os tratores e as famílias agricultoras da região como que num manifesto ruidoso de um sentimento novo, algo que as uniria de forma tão forte que até daria para ver.
Um tanto abaixo de onde os homens descarregavam o calcário e o adubo trazido pelos caminhões, também longe das maquinas agrícolas em aquecimento dos motores, as mulheres escolheram uma franja de bosque de capoeira para armarem a cozinha. Usando travessões sobre forquilhas, penduravam neles enormes caldeirões cheios de toucinho, charque, pés, orelhas e focinhos de porco, cosendo junto com feijão fradinho. Depois, acrescentando-se generosas porções de farinha de mandioca, tudo aquilo seria devorado por homens exaustos do trabalho com a terra, crianças alegremente inquietas e mulheres envaidecidas como nunca. Uma cantiga regional embalava toda esta movimentação: E, ê, ê, ê, ê, ê, elê, elê, elá - Já se vai o sol embora deixando o mundo sem luz. E, ê, ê, ê, ê, ê, elê, elê, elá – Que santinha é aquela toda cercada de flores .....
Eram ainda nove horas da manha quando a terra começou a ser preparada para receber o corretivo, a propriedade escolhida era a do Sr. Paulino Souza. À frente seguia o grande trator de esteira virando os troncos, os grande demais davam muito trabalho à maquina mas caiam mesmo assim e eram recolhidos pela pá carregadeira para dentro das caçambas dos caminhões basculantes. Os troncos menores eram empilhados nas laterais da área que se preparava para ser um grande roçado de mandioca. Depois vinha o trator arado sulcando fundo a terra arenosa e a seguir o trator gradeador pulverizando ainda mais a terra.
A dança das maquinas terminou o dia de trabalho deixando atrás uma mancha pardacenta na terra, que o técnico explicou como "calagem", para reduzir a acidez do solo.
Depois de quarenta e cinco dias a mesma máquina voltou para espalhar o adubo químico e mistura-lo ao solo com o passeio da grade de disco indo e vindo sobre a nova terra. O técnico explicou que em trinta dias a roca seria plantada.
Todo esse ritual repetiu-se nos outros sítios agrícolas da região do Arapiranga, as crianças, as mulheres, a feijoada, as máquinas e os homens não pararam numa mesma propriedade nos vinte e cinco dias de trabalho duro que se sucederam. Depois disso começaram os mutirões para o plantio das rocas, uma festa de mãos se cumprimentando, brandindo enxadas, sulcando a terra fresca, depositando ao fundo a estaca semente de vinte centímetros de cumprimento e cobrindo-as com uma porção calculada de terra. Tudo devidamente alinhado e perfeitamente obediente aos distanciamentos determinados pelo técnico agrícola entre uma cova e outra.
Passados oito meses, em meio a grande surpresa inicial, as plantas vigorosas começavam a perder as folhas. Era o sinal que eles tanto esperaram, indicando que as raízes estavam quase maduras.
Então recomeçaram os mutirões nas propriedades, na mesma ordem que foram realizados no preparo da terra. A novidade ficou desta vez, com as carroças puxadas por cavalos e burros, alinhadas uma atrás da outra em um dos lados do roçado num total de oito veículos atrelados a oito animais nem belos e nem fortes, apenas eqüinos e muares bem adestrados.
As mulheres mais jovens e as crianças participavam da festa da colheita brincando num terreirão que já se preparava ao lado da lavoura para receber a roça do próximo ano agrícola. As brincadeiras e os gritos de satisfação cresciam apesar do sol também ir-se esquentando forte e rapidamente.
À sombra do mesmo bosque de antes as mulheres esposas coziam outra grande feijoada, mas também assavam leitões e borregos e cuidavam da bebida fermentada dos maridos, mergulhando as garrafas na água fria do rio Arapiranga. O tempo poderia mudar para chuva, mas o sol brilhava sozinho naquele dia.
Quando chegou o momento de iniciar mesmo a grande colheita do ano de 2001, o ancião deu o comando para a oração da colheita da mandioca, de certa tradição na grande região sul do estado:
Ao Sol – disse o ancião, voltando-se para o leste.
Agradecemos senhor – os agricultores responderam, também voltados para o leste. Ao Vento – disse o ancião, voltando-se para o norte.
Agradecemos senhor, que não foi muito – os agricultores responderam também voltados para o norte. À Chuva – disse o ancião, voltando-se o sul.
- Bendizemos senhor, foi na medida - os agricultores responderam também voltados para o sul.
À Terra – disse o ancião, inclinando-se para o chão.
Agradecemos e bendizemos senhor - os agricultores responderam também se inclinando para o chão. Amém.
Terminada a oração da colheita, ao sinal do ancião o agricultor mais jovem arrancou a primeira planta. Devagar separou os tubérculos, depois pesou-os numa balança de gancho, conferiu a pesada com atenção, ergueu a voz e mandou fazer estaca semente da planta colhida.
Então, o jovem agricultor ergueu o paneiro com a mandioca colhida, orou em silêncio com os olhos fitos no céu e depois depositou os tubérculos aos pés do ancião. Este nada disse ao jovem agricultor, saiu caminhando numa direção que já conhecia até encontrar o que ele considerou a planta-mãe daquele sitio.
Encontrando-a, fez-lhe a marca azul, depois escolheu doze plantas em volta, marcando-as com tinta amarela. Ergue a voz e proclama-se, as treze plantas, incompatíveis com o fogo. Ordena o inicio efetivo da grande colheita.
A terra ainda fresca está escondendo uma espantosa produção de mandioca, algo inacreditável para a maioria daqueles agricultores que nunca tinham tido a experiência de tratar a terra para uma finalidade definida. Onde colhiam antes nove toneladas por hectare em dezoito meses, agora viam a terra parir vinte e cinco toneladas por hectare em apenas onze meses.
As raízes sobre o chão iam formando centenas de pequenos montes, logo recolhidos pelas crianças maiores, pelas meninas, pelos meninos e principalmente pelas mulheres esposas. A cantoria ia num aumentando conforme as centenas de montículos se juntavam para formar uma montanha de mandioca colhida.
A movimentação dessas pessoas lembrava um ataque de formigas saúvas devorando um roçado. Olhando-se de outra maneira, via-se a harmonia do trabalho organizado em hierarquia fluindo alegremente do interior da terra para o interior das carroças e delas aos caminhões estacionados na estrada vicinal de acesso ao sitio.
Depois de cheios, os caminhões com as presumíveis cento e vinte toneladas colhidas tomaram a estrada grande conduzindo a safra para a fabrica de farinha de mandioca, instalada num grande prédio na cidade de Laranjal do Jari.
No trecho em que a estrada cortava a grande floresta densa, os caminhões seguiam muito devagar por causa dos buracos e por causa das dezenas de placas educativas sinalizando o transito que, em resumo, mensageavam: "Dirija com cuidado – trafego intenso de veículos na colheita de mandioca".
Logo atrás dos caminhões vinham os agricultores da região, os donos da safra embarcada naquele comboio com destino à fabrica seguiam à frente dos caminhões em carro aberto, sobre a carroceria da camioneta, distribuindo cumprimentos às pessoas pelas quais passavam.
À entrada da cidade, depois da ultima ladeira estreita por demais carcomida pela voçoroca o comboio parou para se reorganizar. A partir dali as faixas alusivas à colheita de mandioca foram estendidas, os rojões foram distribuídos aos adultos orientados para detoná-los somente quando surgissem as primeiras casas da cidade propriamente dita. A rainha da safra/2000 foi alçada ao palanque construído para esse fim sobre a carroceria de um dos caminhões.
Ao longo de um trajeto calculado em cerca de seis quilômetros, A desembocar no pátio da fábrica, a população se acumulava de um lado e outro da grande Avenida Tancredo Neves. Cada pessoa que aplaudia os agricultores parecia ter a consciência de que a boa safra era, ao fim, uma distribuição de renda real que botava dinheiro no bolso dos agricultores e dos comerciantes, mas também diminuía muito o preço do alimento na mesa urbana. Porém aquele momento era uma oportunidade importante para a cidade homenagear o campo e demonstrar sua cota de respeito ao trabalhador rural que abastece as cidades com o seu trabalho.
Os caminhões encontraram os portões da fabrica já abertos, entraram e manobraram sem atropelos deixando espaço para o restante do comboio terminar de ocupar o pátio de estacionamento da fabrica.
Com as pessoas todas acomodadas, mas percebendo a grande movimentação de populares se acotovelando lá fora, na rua em frente, o diretor-presidente da cooperativa que gerenciava a fabrica de derivados da mandioca ordenou o processamento inicial da safra/2000.
Naturalmente que se tratava de um processamento simbólico, de extrema valia para os agricultores e empresários em geral. O seu ritual era nervoso porque tinha o objetivo de emitir sinais claros para o mercado de produtos derivados da mandioca, iniciando-se a partir dali uma avaliação qualitativa dos produtos obtidos que estimularia ou inibiria as manifestações culturais dos agricultores relativos ao cultivo da mandioca.
A um sinal do diretor-presidente da cooperativa os operários pararam as máquinas para que ele, passeando o olhar pela multidão, fizesse escolhas aleatórias:
O senhor será o provador da farinha.
Você jovem, será o provador de tapioca.
A senhora, por favor, seja a avaliadora do tucupi.
Num momento todos estavam a postos, cada qual tendo à frente um utensílio com os produtos a serem avaliados. Passados alguns minutos o diretor-presidente prossegue o ritual:
- Senhor provador, qual o resultado da sua avaliação para a farinha fabricada a partir da mandioca da grande safra do ano de 2000,do município de Laranjal do Jari ? = Excelente, senhor diretor. - Senhor provador, qual o resultado da sua avaliação para a tapioca fabricada a partir da mandioca da grande safra do ano de 2000, do município de Laranjal do Jari? =Excelente, senhor diretor.- Senhora avaliadora, qual o resultado da sua avaliação para o tucupi extraído da mandioca da grande safra do ano de 2000, do município de Laranjal do Jari? = Excelente, senhor diretor.
Parcimonioso, explorando ao máximo a ansiedade dos presentes, o diretor-presidente da cooperativa recebe o martelo de madeira das mãos do auxiliar, convoca o agricultor proprietário daquela primeira grande produção de mandioca e juntos sobem na carroceria de um caminhão deixado ali para esse fim. A quatro mãos, o martelo é batido:
A cooperativa compra toda a safra de mandioca do ano de 2000 colhida no município de Laranjal do Jari – diz o diretor-presidente. = Eu vendo a safra – diz o ancião representante simbólico de todos os agricultores. Aí o povo explode em festa, rojões, chapéus, cerveja e cachaça são jogados para o alto. Abraços, gritos e choros de alegria temperam a grande festa inaugural ao tempo de prosperidade agrícola que todo o vale do Jari passava a conhecer.
A partir desse dia desaparece do labor rural amapaense a figura do plantador de mandioca, dando lugar ao lavrador especialista em agricultura econômica.
FIM